A criança que eu fui não tem só feridas


Quando eu era criança eu tinha uma força que, só de lembrar, me deixa hoje com inveja. Esse papo de “cuide da sua criança ferida, coitadinha” nunca me convenceu muito. Meu menino interno se machucou muito e desenvolveu muitas defesas por causa disso, mas foi um veículo importante para o homem de hoje estar aqui, vivão e consciente como diria o Brown.


Hoje eu paro para pensar meus recursos de enfrentamento que disponho hoje e fico muito orgulhoso, muito grato por quem eu fui quando era pequeno/mais jovem, pois eu só tenho o ferramental de hoje porque meu menino precisou apertar parafuso com uma colher. Você já tentou apertar um parafuso com uma colher? Você já tentou fazer qualquer atividade manual complexa usando a ferramenta inadequada ou nenhuma ferramenta?


Responda-me: como é que se enfrenta o mundo sem saber como fazer isso? Como é que alguém encara os contratempos, naturalmente humanos, com pouca ou sem experiência no cargo?

Relaxa, esse trampo já foi feito.


Frustrações, traições, abandonos, violências e tudo que há de mais adverso foi preciso enfrentar e vencer, e não me entenda mal, não se trata de romantizar do sofrimento, mas sim da consciência de que o que aconteceu já aconteceu, está na história, não posso mudar, e que a maturidade traz novas batalhas: se livrar das armaduras tão necessárias no passado, mas que hoje já não serve mais.

O jovem enfrenta o mundo usando as armas que estão ao seu alcance, eu respeito demais esse corre, trato meu menino interior como vencedor, Davi da periferia, Kiriku brasileiro.


Já o adulto maduro enfrenta duas guerras: contra o mundo e contra si mesmo. Tem a tarefa de se despir das armaduras antigas, improvisos e gambiarras, prestando todo respeito devido a elas.


E isso só é possível por causa das ferramentas que o jovem conquistou.


#descriçãodaimagem : fundo da imagem em branco com textura similar a de papel amassado. Nas laterais superiores esquerda e direita, há duas formas orgânicas em azul e marrom. Na parte central e superior da imagem, há o link du autora da imagem utilizada, do psicólogo parceiro quem escreveu o texto: "Marcos Lacerda" e da tag do assunto abordado: saúde mental.


Centralizada e justificada à esquerda, há o título do post: A criança que eu fui não tem só feridas. Na lateral direita e alinhada ao título está a imagem de uma criança. Ele é negro, seus cabelos são longos em dreadlocks e está sorrindo, fazendo o sinal de afirmativo ("positivo") com a mão. Atrás da criança há uma forma orgânica em rosa. Na lateral inferior esquerda há o logo do Canto Baobá em verde.

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