Eu só queria ser afeto.

Enquanto homem gay, eu sempre fui cheio de afetos, carinho e amor com aqueles que me cercavam. Desde pequeno fui assim, é de mim, mas aos poucos foi tirado: já que enquanto homem, não poderia ser tão "Feminino".


Eu tinha que ser forte, afastar sentimentos que simbolizavam fraqueza ou "feminilidade". Aos poucos, me afastei dos meus afetos: vitória da sociedade, dos familiares, dos homens, mulheres e crianças que brincavam na rua comigo. Conseguiram me fazer "ser homem".


Mas eu me desviava quando nenhum adulto estava me olhando! Abraçava, beijava e dizia que amava as pessoas. Percebi que os meninos que brincavam na rua comigo passaram a se afastar de mim, afinal, eles também eram massacrados pela normatividade masculina e eu sofri, porque me empurravam, me chamavam de "viado"(o que é verdade), e demais violências que me afetavam diariamente. Já sofri muita violência física por ser quem eu sou.


E assim fui crescendo, pois é inevitável o processo biológico e físico. Entendi que não poderia receber afetos de outros homens, mas eu queria tanto! Sempre pensei o quanto seria incrível poder fazer o que eu fazia com as minhas amigas com os caras que eu gostava, ou tinha vontade de me aproximar no colégio.


Lembro, agora falando da fase adulta, de um colega que vi chorando em uma escadaria. Escondido de todos no trabalho. Nesse dia, acabei utilizando as escadas e vi ele chorando. A cena me partiu ao meio e me espantou muito: afinal, era um homem cis e hétero aos prantos.


Eu passei, olhei para ele. Trocamos olhares enquanto ele secava as lágrimas. E eu passei reto, pois o medo me dominou. Eu não podia me afetar em ver um homem chorando, porque eu também sou homem e o que eu aprendi na minha infância foi que homens com afetos são violentados.


Nos relacionamentos, sempre fui de namorar. Gosto de estar em relacionamentos trocando afetos e possibilidades de amor com outros homens. Depois de muita terapia, percebi o quanto algumas daquelas relações do passado eram só para viver e matar todo o acúmulo de desejos que tanto me foi negado pelos homens, sociedade, meu pai, amigos que não fiz na escola e demais locais.


Eu depositei nas relações amorosas todo o afeto das amizades com os homens que eu não pude ter. Tudo isso porque não podia me conectar, me expor, ver eles se exporem e sermos vulneráveis juntos, mas que nem a minha e nem a deles, nem a masculinidade normatiza me permitiu viver isso.


A terapia me permitiu ver o quanto eu queria ter amigos homens da mesma forma que eu tinha amigas mulheres! E que essa carta, que além de ser para minha masculinidade, permita afetar a sua masculinidade e tantas outras também.


Hoje, eu só quero e permito me conectar.


#descriçãodaimagem : o fundo da imagem é branco. Na parte superior esquerda está localizada uma forma orgânica nas cores marrom e laranja. Ao lado da forma orgânica, está o nome do autor de texto: Bruno Felipe. Do lado esquerdo e superior, está uma imagem de uma flor nas cores azul, laranja e marrom.


Centralizado e à esquerda, está o título do texto: "Eu só queria ser afeto. Reflexões sobre masculinidades e infâncias LGBTQIAP+". Ao lado do título, está uma ilustração de um coração nas cores do arco-íris. Na lateral inferior esquerda, há uma forma orgânica em laranja. Sobreposta, está a logo do Canto Baobá.

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