Um Brasil de Carolina Maria de Jesus

Atualizado: 3 de fev.

"Minha mãe era descendente do ventre livre, e dizia que o branco, é o verdadeiro dono do mundo. Eu dava risadas. MInha mãe aprendeu a dizer aos brancos, sim senhora e sim senhor. Quando chegou a minha vês, a fazendeira examinou-me como se eu fosse um objeto exposta a venda. Dizendo que eu deveria ser uma negrinha esperta porque, era magrinha, canela fina, ficou com inveja da minha mãe que tinha uma filha perfeita. A inveja duplicou quando lhe disseram que eu sabia ler. Perguntou o meu nome. Minha mãe respondeu com a vós tremula pórque a presença de um branco, lhe atemorizava. Ela chama; Carolina Maria de Jesus "



No dia 14 de março de 1914, em minas gerais, nasce uma das primeiras escritoras negras do Brasil (Maria Firmina dos Reis é a primeira, nascida em 1860, no Maranhão. Nossa pioneira, primeira romancista mulher, foi uma mulher preta!). Carolina Maria de Jesus, negra, filha de pais analfabetos e negros, aprendeu a ler aos 7 anos de idade.


Conhecida como a catadora de lixo e favelada pelo senso comum, Carolina revolucionou a escrita brasileira, tornando-a pertencente do que realmente é: de um Brasil racista, desigual, que luta contra a fome, a possibilidade de moradia, a luta por uma existência preta. Carolina pensou e escreveu sobre um Brasil para brasileires.


Essa postagem é um convite para irem à exposição "Carolina Maria de Jesus: Um Brasil para os brasileiros" em São Paulo, de entrada gratuita, que fica em cartaz no Instituto Moreira Salles até o dia 27 de março de 2022. A exposição, dedicada à sua trajetória de vida e literária, traça uma linha tênue entre uma vida pós escravidão e a semelhança dos dias de hoje.


Nas artes a seguir, você confere alguns escritos espalhados pela exposição: mas a ida ao museu se faz, mais do que nunca, necessária e urgente.


Carolina vive!



#descriçãodaimagem : Essa postagem é um carrossel, divulgando a exposição de Carolina Maria de jesus no Instituto Moreira Salles, localizada na Avenida Paulista, em São Paulo. Portanto, todos os escritos da descrição dessas imagens estão disponíveis e foram tiradas fotos de algumas citações pegas da exposição. Todas as imagens possuem: fundo branco com textura similar a de papel amassado, com a logo clínica do Canto Baobá localizada na parte inferior esquerda. Existem algumas formas orgânicas localizadas espalhadas pelas 3 imagens: elas são arredondadas, nas cores verde e amarelo da paleta de cores do Canto Baobá. É importante avisar que os escritos são datados, e estarão traduzidos pela ortografia da época.


Imagem 01: Escrita "Um Brasil de Carolina Maria de Jesus". Abaixo do escrito, há uma imagem de Carolina Maria de Jesus. Ela é uma mulher preta retinta, utiliza um vestido branco de alças grossas, um lenço em sua cabeça branco e está de colar. Ela segura um livro.


Imagem 02: texto 01 "Tem uma preta velha que vêm visitar-me, pedi para passar umas roupas para mim.Mas ela não mais tem agilidade. É lenta. É viúva. Eu disse-lhe que quero lutar para deixar uma casa a cada filho. Que os pretós devem lutar pelo os filhos. Ela comentou: o homem preto sabe amar. Mas não sabe lutar pelós filhós. se as negras não pular, eles não pulam Achei graça, perguntou-me porque e que eu não casei? E que eu gosto de ler. E um homem não ia de tolerar". Texto 02 "Minha mãe trabalhava. era doméstica, ganhava trinta mil réis por mês. e comprava botinas para meu irmão, doze mil réis o par. E uma sandália para mim. Sandália era o calçado dos póbres. Ficava alegre. porque na época do frio, eu podia andar calçada e usar meias." Texto 03 - "[...]parei para conversar com uma senhora que resside na esquina na Rua Araguaia e mostrei-lhe a reportagem do Audálio e a reportagem do senhor Moacir Górge no diário. Ela admirou- Disse-me que ouviu dizer que escrevo, mas não acreditou porque eles pensam que quem escreve e só as pessoas bem vistidas. Na minha opinião, escreve quem quer".


Imagem 03: texto 01 " A Vera começou pedir comida. E eu não tinha. Era a reprise do espetaculo. Eu estava com dois cruzeiros. Pretendia comprar um pouco de farinha para fazer um virado. Fui pedir um pouco de banha a Dona Alice. Ela deu-me a banha e arroz. Era 9 horas da noite quando comemos. E assim no dia 13 de maio de 1958 eu lutava contra a escravatura atual – a fome!" texto 02: "Eu não tenho complexo de cor, eu gosto de ser preta. Se Deus enviasse-me branca, creio que ficava revoltada. Quando eu leio nos jornaes Carolina Maria de Jesus, a preta favelada fico contente. Favela e o lugar dos pobres. É a manjedoura da atualidade. Cristo nasceu em uma mangedoura. Se renascesse, seria uma favela. O recanto dos que não podem acompanhar o custo de vida." Texto 03: "As mulheres que estavam na minha mesa falavam em reforma social. - Não é justo deixarmos os favelados relegados no quarto de despejo. Você fez bem em nos alertar para esse problema. Temos que amparar os infaustos. Você demonstrou coragem lutando para sair daquele antro. Eu pensava: elas são filantropicas nas palavras. São falastronas. Papagaios noturnos. Quando avistam-me é que lembram que há favelas no Brasil. Quando eu morrer o problema será olvidado como decreto de político que vão para as gavetas, será que surge outras Carolinas? Vamos ver!"

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